Bagunça como constelação: a bagunça no cinema infantil de comédia
Kauã Casagrande Reis
Introdução
Sobre a bagunça: no uso cotidiano, bagunça é uma palavra que está muito associada ao universo infantil. Uma palavra que costuma ser atirada pelos adultos nas crianças. A criança faz bagunça, é arteira. Fazer bagunça é então pôr em desordem, desarrumar o que foi arrumado pelo adulto, mas não simplesmente caos, a bagunça infantil também pressupõe o sorriso e o prazer no desarranjo, não é simples desordem mas também liberdade.
No que diz respeito à metodologia utilizada para a escrita deste texto, o método comparativo descrito por Mariana Souto como constelação fílmica será a principal ferramenta, que guia o raciocínio e estrutura o texto. A constelação como metodologia nasce em Walter Benjamin e passa a ser adotada como organização de pensamento em várias áreas do saber. Partindo do texto de Souto (2020, p.156), “Constelar é uma forma de produzir chaves de leitura, de produzir um sentido a partir de sua visão em uma teia de relações”. Aquilo que este texto propõe, então, é constelar sob o céu do cinema de comédia infantil, elegendo como estrela os filmes Gremlins (1984), Minions (2015), Robocop 2 (1990) e O Regador Regado (1895), unidos pelo signo da bagunça.
Quanto a demografia, os filmes selecionados em questão possuem o espectador infantil como alvo ou parte de seu público. No caso de Robocop 2, o espectador infantil é aportado de fora como público consumidor, sendo o primeiro Robocop um filme adulto. O que cria um resultado de conteúdo heterogêneo curioso, onde cenas e temas “infantis” convivem o mundo adulto. Em O Regador Regado, em virtude de uma característica dos vaudevilles como espetáculos familiares, o público infantil, naturalmente, era contemplado.
Mentira, encarnação, e a ética da bagunça
Existe, logo no primeiro atrito entre Gremlins e Minions, uma notória semelhança no que diz respeito aos seres que batizam seus respectivos filmes. Ambos são aquilo que se pode chamar de agentes da bagunça. Tanto em Minions quanto em Gremlins, a bagunça atua como rastro, pegada e identidade, a bagunça é sinônimo dos exércitos de criaturas. E nos dois filmes uma mesma mentira é contada para o espectador, a mentira da maldade. Os minions são apresentados como os servos do maligno e os gremlins ainda no início do filme tem um nome diferente, Mogwai, tradução para algo próximo de diabo ou espírito maligno. Em um primeiro momento a mentira do filme nos faz acreditar que os seres em questão são algo para se desconfiar e temer, seres de maldade infinita. Com o passar do filme qualquer criança acaba simpatizando com os monstros de aparência fofa, percebendo que nem os minions ou os gremlins são maus, são somente bagunceiros. São, não a maldade como nos é prometido, mas a bagunça encarnada e isso, somado a sua caracterização, é o que atrai a atenção e agrada o olhar infantil. A desordem que criam esses pelotões da bagunça é aquela impregnada pelo riso da diversão e da comédia, onde o mal não alcança, sendo o sorriso a ética da bagunça. A mentira se revela como mentira justamente nos momentos onde os monstros, ao lado dos companheiros certos, aqueles reconhecidamente pessoas de bem, se provam ótimos amigos. Como é o caso de Gizmo com Billy e os minions com Gru.
Em O Regador Regado e Robocop 2, os agentes da bagunça são os mesmos, apesar de que, em Robocop, os agentes da bagunça não são tão óbvios nem tomam conta de toda trama, mas as crianças são definitivamente o signo máximo da presença da bagunça em ambos os filmes. Robocop, principalmente, é um filme profundamente marcado pela presença de crianças. A cidade está uma bagunça com a polícia em greve, e aquilo que salta aos olhos na representação dessa cidade em desordem são as gangues formadas por crianças, seja o garoto que integra e hora lidera o grupo de bandidos principais, seja pela gangue de crianças do time de baseball assaltando uma loja e fazendo um senhor de refém. Novamente a bagunça não é representada por simples caos, mas também pela comédia, onde o que é mau não alcança. Mesmo o desfecho da situação das crianças assaltantes é marcado pela comédia, para o adulto e líder da gangue, que não é capaz de fazer bagunça, a punição é a morte, enquanto as crianças terroristas terminam recebendo lições de moral do Robocop. O caso de O Regador Regado é tão inevitável, quanto irônico, aquilo que se considera o primeiro filme de comédia tem como um de seus protagonistas uma criança, aquele que prega a peça e propõe o caos.
A bagunça como estrutura e forma
A bagunça, assim como tematicamente, também se apresenta de maneira singular na forma fílmica dos exemplos já citados. No caso do filme Minions, aquilo que se integra muito bem ao filme e sua temática é a sua estrutura narrativa que se apresenta como trilha, os minions no filme são apresentados como seres em movimento e o filme trabalha justamente a captação desse movimento, um movimento de trilha, uma trilha de bagunça, que começa desde o princípio da vida e chega aos dias atuais. O filme se torna uma espécie então de road movie, com foco no documental — compreender a vida e o passado dos seres amarelos através da observação, assim como os documentários de animais feitos para pensar o cotidiano do exotico, com interesse e fascínio sobre os hábitos das criaturas —, isso somado a elipses com flashbacks e esquetes de comédias que desorganizam e bagunçam a trama mais linear.
Um caso já mais aparente de bagunça, é a própria experiência de assistir Robocop 2, um filme que transparece, sem esconder nada e aí mora a beleza da coisa, a bagunça contida em si e abraçada pelos realizadores. Em relatos da produção de Robocop 2, o tema central é a quantidade de problemas que houveram. Sendo Robocop (1987) um sucesso de crítica e bilheteria, a produtora seguiu com a ideia de uma continuação, uma sequência escrita por Frank Miller considerada irrealizável, e com a ideia de aproximar o sanguinário e frio Robocop na popular figura do super-herói, atraindo um público infantil. Essas e mais outras circunstâncias tornaram o filme na bagunça que ele é.
Uma cena que vale ser mencionada que diz um pouco sobre a questão da bagunça na sequência de Robocop é a da sobrecarga de diretrizes, onde Murphy não consegue processar as múltiplas ordens divergentes em seu sistema então se dá um choque. O que diagnostica a bagunça é justamente o fato de boa parte dos momentos de comédia do segundo filme existirem justamente durante o período dessa sobrecarga de diretrizes. A comédia sendo esse reduto da bagunça, da boa confusão.
A moral da bagunça
Eis então uma última questão: a bagunça está a serviço do quê?
A bagunça por natureza é hedonista e tem fim nela mesma, mas não significa que não possa existir em outros contextos. Em Gremlins, por exemplo, a bagunça criada pelos demônios do oriente serve como moral tanto para os personagens do filme quanto para o filme em si. Todo o caos vem do descontrole dos humanos em lidar com a natureza e o mundo ao redor, ao fim da bagunça, vem o tempo para se compreender a lição dos Gremlins. O árduo trabalho de Joe Dante sobre esse filme é nítido e merece todos os elogios, um filme feito com todas as qualidade que o cinema americano uma vez teve.
Pensando, em oposição, na ideia de um purismo bagunçeiro, tanto O Regador Regado, quanto o filme Minions se mostram totalmente interessados em explorar a comédia e diversão proveniente da bagunça gerada. Em O Regador Regado, as características de um cinema de mostração e atração, uma própria filosofia de encenação do primeiro cinema, excluem a possibilidade de moral e reflexão sobre a pegadinha do garoto. As consequências devem ser desconsideradas.
Em paralelo a Gremlins, Minions acaba, justamente por colecionar todos os defeitos que o cinema americano contemporâneo pode ter, chegando curiosamente a um resultado louvável. Seguindo essa premissa de trilha e rastro, os minions durante o filme simplesmente andam mundo afora bagunçando tudo até o final sem nenhum tipo de grande lição ou moral, somente se divertindo e divertindo quem vê. Um filme feito com o principal objetivo de capitalizar em cima da franquia Meu Malvado Favorito, com um final que serve apenas como gancho para um segundo filme de uma franquia spin-off. Essa convergência de, talvez, descaso com o filme criou um cenário perfeito para que as potências dos minions desabrochassem. Uma primavera da bagunça.