A HORA DA ESTRELA (1985) – CRÍTICA

Macabéa, o alien e o burro Balthazar

Kauã Casagrande Reis

Já nos primeiros segundos do filme, antes mesmo de qualquer personagem ousar aparecer, o que se ouve, junto a uma tela azul, são trivias seguidas de um bordão. Rádio Relógio é o nome da estação de rádio, com um programa de conhecimentos gerais que assombra os sonhos de Macabéa.

Em A hora da estrela (1985), existe um esforço notável por parte de Suzana Amaral (diretora) em deixar clara a dificuldade de Macabéa em acessar o mundo ao seu redor. Desde o início, com as chamadas da Rádio Relógio disparando contra o espectador fatos banais, que de nada adiantam realmente para entender o mundo. Mesmo que os ouvisse eternamente, ou que soubesse de todos os fatos curiosos, Macabéa jamais conseguiria compreender esse mundo de fato.

Além da protagonista, mais dois personagens se destacam: Olímpico (José Dumont) e Glória (Tamara Taxman). Olímpico é namorado de Macabéa, formando um casal de dinâmica interessante: Macabéa, fora dos padrões e cheia de perguntas; Olímpico, com o sonho americano e cheio de certezas. Olímpico é o avatar do mundo e do comum, que, no melhor dos casos, tolera Macabéa, mas não a compreende. Glória, colega de trabalho de Macabéa, é outra mulher perdida à sua maneira — uma mulher vivida que, apesar de confusa, luta por si e não se deixa à deriva.

A linguagem, em suas várias formas, é o grande vilão do filme, e a diretora reconhece esse aspecto do conto de Clarice Lispector, dando-lhe seus contornos autorais. Na falta do narrador que Clarice cria para seu livro, Suzana Amaral impõe uma mise en scène onde os acontecimentos nos são apresentados imparcialmente e tudo é muito cru. Somos testemunhas de Macabéa, como num jornal que pede para que opinemos sobre o mundo. Já que Macabéa nada faz, resta a nós a indignação. Nesses aspectos, o filme lembra bastante Au Hasard Balthazar (1966), de Bresson. Em alguma medida, é um filme que tem certo fascínio pelos animais, que os observa com um olhar sereno, tanto o gato quanto o hipopótamo do zoológico são sempre retratados como vidas que decifraram completamente o mundo — ou, pelo menos, abandonaram o desafio de compreendê-lo.

Macabéa, no entanto, se esforça verdadeiramente para se inserir nesse mundo de signos. Como diz à vidente, tem medo das palavras, mas está sempre perguntando a Olímpico seus significados. Para Macabéa, ingenuamente, mas com um movimento reflexivo legítimo, conhecer as palavras é conhecer o mundo. Em dado momento, Olímpico pergunta se Macabéa é humana, que acaba em dúvida na resposta. Seria Macabéa um Alien? Não seria absurdo dizer que sim. Para os idealistas alemães, o que definiria o homem seria não só a razão, mas sua capacidade de se relacionar com o mundo por meio da própria linguagem e costumes [nunca achei essa passagem lendo Kant, mas as palavras de meu professor sempre caminharam comigo, verdade ou mentira]. Para Lacan, o que define o humano é a inserção na linguagem e na ordem simbólica.

A reta final do longa deságua em duas situações. Primeiramente, a derradeira ida à cartomante — quando o mundo nos parece ininteligível, sem sentido, impenetrável, o que resta é recorrer à magia. A cartomancia, que por sinal é também uma linguagem, e que, como uma piada cósmica de mau gosto, para a infeliz Macabéa — amaldiçoada a não ser entendida nem entender — acaba ocorrendo um erro de interpretação por parte da cartomante.

A segunda situação é o atropelamento de Macabéa. Na última cena do filme, mais uma última vez, por ironia do destino, Macabéa deixa passar outro signo do mundo: um semáforo vermelho.

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