Publicado na Cahiers du Cinéma nº 408 de 1988.
Considerando que Claire Denis foi assistente nos dois últimos filmes de Wenders, o prólogo de Chocolat anuncia uma espécie de road-movie ao estilo africano. Por uma estrada africana, Mireille Perrier cruza por um pai e seu jovem filho, os dois decidem entrar no carro e ir para Douala. Travellings deslizantes, passagens que desfilam. A relação vai se cristalizando mas, de vez em quando, basta um gesto, um pouco como em Proust, para evocar uma memória involuntária. O espectador se vê mergulhado em uma atmosfera um pouco retrô, e compreende rápido que a Mireille Perrier do prólogo se metamorfoseia na pequena filha de funcionários coloniais. A partir daí, Claire Denis vai tentar tecer alguns momentos significantes e cotidianos da vida de uma família durante a colonização. Desde o início, o olhar se focaliza na proximidade entre a pequena filha — que tem o nome emblemático de France — e o rapaz negro, Protée (o excepcional Isaak de Bankole). E esta relação, que acompanhamos de vez em quando, será, ao longo de todo o filme, o fio de Ariadne que percorre os laços despreocupados da narrativa. Uma das forças do filme é justamente não explicar nada, mas de acompanhar estes dois personagens, registrando fielmente tudo que permanece não dito, difuso, latente entre eles. Estranha relação de trocas feita a partir do mistério, coisas da natureza, mistério dos pequeninos — as formigas, os insetos no geral — ou dos gigantescos — as montanhas, os grandes espaços ao redor da casa da família. Relação sob influência, rituais enigmáticos quase místicos, no meio termo entre o pueril e o religioso. Momentos quase sadomasoquistas como quando a pequena filha dá de comer à Protée ou quando este, já no final, provoca uma queimadura grave na mão de France, como se quisesse selar um pacto marcado para sempre em seu corpo. Toda uma rede de olhares, de gestos, de toques leves na pele filmados com uma sensualidade desconcertante.
O elemento comum entre os dois personagens, é o olhar. Ambos são seres definidos pelo olhar, quase mudos, inacessíveis no mundo dos adultos assim como no mundo colonial. France, do alto de sua indiferença, observa enquanto zomba do circo dos adultos; ela mantém a distância deste mundo, ao mesmo tempo sempre presente e ausente. Seu olhar não julga, ele não é mais que um instrumentos de captação de instantes, de ritmos, assim como a câmera de Claire Denis. Já o olhar de Protée é mais ambíguo. Ele contém uma pulsão de revolta oculta que é como que anulada por uma força de submissão menos profunda. Ele admira os brancos ao mesmo tempo que os detesta. Além de sua relação com a criança, por outro lado ele mantém uma relação problemática com a mãe de France (Giulia Boschi), que se parece, até certo ponto, com aquela de The Servant de Losey: uma relação de sedução um tanto quanto perversa, que fica no limiar de uma vampirização do mestre pelo servo. Tudo isso, durante o filme, é de uma grande discrição, jamais exagerado, sempre em um estado virtuoso, como se na fronteira da significação. Claire Denis está incontestavelmente muito a vontade em filmar o incompleto, o silêncio, a insistência, tudo o que rodeia mas permanece invisível. Ela se sobressai em capturar um tempo e um ritmo muito particulares, o da África colonial. Tempos não estriados, sem pontos de referência precisos, tempos não eventuais onde as coisas simplesmente acontecem, sem que elas sejam anunciadas, nem desejadas. Falsos ritmos de calor, de espera, de exílio, tudo que faz de Chocolat uma obra-prima.
Mas há um outro aspecto que não pode passar desapercebido, a crônica de uma comunidade colonial. Com toda esta dimensão contemplativa e sensual, Claire Denis tenta sobrepor uma espécie de narrativa descontínua que mescla estes personagens oriundos de localidades diversas. O filme, que é sobretudo estático, está ligado à uma casa. Esta casa é a ligação primária desta célula familiar ou do que restou dela, já que o pai está frequentemente ausente (o que aliás nos rende uma montagem paralela de péssima qualidade, entre a expedição do pai e a vida da mãe e da filha). Em um primeiro momento, Chocolat descreve o mundo paralelo dos servos em sua convivência com as duas personagens femininas. Um universo que beira o pitoresco (o cozinheiro), mas que confere a profundidade necessária à uma narrativamente relativamente vazia de acontecimentos. As coisas se complicam gravemente a partir do momento em que o universo da casa começa a ser povoada por uma diversidade de personagens. Por conta de um acidente de avião, a família se transforma em uma comunidade em que se agregam toda uma gama de figuras aflitas: pilotos, um cafeicultor, um funcionário em seu novo cargo, todos representantes, em um nível ou outro, de uma África um pouco retrô. Mas Claire Denis não consegue dar vida a estes personagens. Não somente o pai de France, do qual se sabe pouquíssimo (de que são feitas as expedições? Para quê serve seu caderno de desenhos?), fracassa ao se impor para a tela, mas todos os coadjuvantes carecem de profundidade e acabam se tornando pouco a pouco figuras inconsistentes (com exceção de Jacques Denis um cafeicultor racista e alegre). A carência não é somente psicológica, ela é sobretudo romântica. A cineasta parece incapaz de construir um cenário, uma história: ela claramente não tem o dom da narração e dos conflitos. E mesmo quando ela introduz ao interior da comunidade a figura reveladora que deveria modificar os comportamentos, alterar as relações de poder, nada acontece. Este, antigo seminarista, parece mais um espécie de hippie um tanto anacrônico do que a figura secular que este deveria encarnar, e longe de dar à narrativa novos ares, ele não traz nada além de um peso ideológico do qual o filme poderia facilmente ter se desfeito. Talvez reste a pintura de um mundo no aguardo de sua própria morte, de sua decomposição que passa ao redor de uma sequência ou de um plano (como o plano fixo ou, no meio de três personagens, Jacques Denis se põe a cantar uma velha canção: “Je sais une église”…).
Pode-se dizer que Chocolat desperta sentimentos extremamente mistos. Na verdade, Claire Denis parece evitar perder seu tema em andamento; um tema que gira em torno da infância, de seus encantos e suas ilusões, ao redor de uma elaboração secreta das lembranças, ao redor de um mundo e de um tempo imóveis. De tudo, resta, sobretudo, a singularidade de um olhar capaz de sentir e capturar o imaterial, o que vai para além dos sentidos. À equação que deseja reconciliar o romântico e o cinema moderno, Claire Denis certamente não oferece um resposta satisfatória. Seu filme é heterogêneo, um pouco mal feito, como se na expectativa de sua própria forma ou de um futuro improvável. Mas é um fracasso que termina com mais promessas do que acertos. Está claro que Chocolat contém certamente os germes de uma obra que está por vir.
— Thierry Jousse