Golpe Fantasma (2025) – Entrevista + Crítica

Entrevista

João Carvalho: Gostaria de começar te perguntando, considerando que você é um artista e um autor que está envolvido em múltiplas área do audiovisual, então você não está exclusivamente ligado à direção de cinema, em que grau de dedicação à direção você se encontra neste momento?

Gabriel de Tilio: Dizer ou elencar um grau em específico eu não sei, mas eu acho que a direção sempre é o meu principal objetivo, eu estudo e trabalho para exercer a direção. Eu acho que muito das outras áreas que eu tento estudar e me aprimorar, a fotografia, antigamente eu era muito próximo da direção de arte, hoje não estou tanto, mas eu acho que tudo isso surge em benefício pra eu dirigir em algum momento. Pode ser que isso não seja especificamente um treino pra dirigir exatamente, mas eu tento transformar em um treino, então sempre que eu estou dirigindo a fotografia eu to pensando no que eu vou levar disso para direção, sempre que eu vou gravar algum audiovisual em geral, pro Instagram, eu tento me aprimorar na questão da direção, em onde por a câmera e em como gerar a sensação que eu quero.

JC: Antes de entrar de fato no campo do filme, eu queria te perguntar sobre os seus pensamentos sobre o cinema universitário. Considerando que o seu filme está ligado ao cinema universitário, e é feito com vínculo acadêmico, sobre como você pensa o seu filme inserido dentro deste contexto e levando em conta todas as questões de uma produção de baixo custo, universitária, e também as tendências temáticas e narrativas do cinema universitário. Como você pensa o seu filme em relação ao cinema universitário como tendência.

GT: Bom eu acho que o cinema universitário é um ponto de partida, eu vejo ele hoje como um ponto de partida para vários autores, principalmente ao meu redor, eu enxergo os outros pares que fazem cinema como autores em potencial e confio que isso pode dar certo para eles, são pessoas boas. A universidade tem o papel de ensinar cinema, e acho que ela vem cumprindo seu papel, mas eu acredito que dentro do próprio meio universitário falta isso que a gente está fazendo aqui, que já é considerar esse autores como autores e falar sobre os filmes que são feitos no próprio ciclo, e fazer essa troca de conhecimento, tratar esses filmes como a gente trata os outros filmes de fora e comentar sobre eles, enfim. Eu acho que isso falta no meio universitário porque qualidade a gente tem, filmes bons existem vários. Você perguntou sobre tendência, eu acho que o cinema universitário tem duas grandes tendências de filmes que eu enxergo, que é ou fazer um filme de terror, eu acho que o universitário acaba sempre caindo numa lógica do filme terror por remeterem a filmes baratos na indústria e em Hollywood, os filmes de menor orçamento são os de terror. Então acho que tem essa ideia no imaginário geral de que pra fazer um filme barato de gênero tem que ser de terror, então eles caem pra esse lado. Ou são aqueles tipos de produção ‘agrada festival’, que são filmes que o pessoal considera como ‘filme de arte’ que puxam pra um drama meio melancólico, algo que não tem muita movimentação de trama nem de ação dentro do filme, enfim essa coisa mais monótona, o que a gente imagina por filme de arte. Eu acho que são essas duas grandes vertentes em que cai o filme universitário e acaba, que querendo ou não, esses filmes tipo ‘filme de arte’ acabam tendo mais sucesso em festivais, e por isso também que ele é feito, é uma espécie de vitrine garantida.

JC: E como você enxerga o seu filme dentro desses dois campos que você apresentou, você acha que ele está entre os dois, ou acha que ele tenta escapar essa linha?

GT: Bom, eu não tento esconder que o Golpe Fantasma é um filme de gênero, mas eu acho que ele se difere neste quesito por buscar um gênero que não é tão trabalhado no cinema universitário por ser um tipo de filme mais trabalhoso de ser feito. Então, eu imagino que ele fuja um pouco dessas duas tendências. Eu acho que ele tem um pouco desse ‘filme de arte’, estou chamando de ‘filme de arte’ mas todo filme é arte, só uma nomenclatura para ficar mais fácil de entender. Eu acho que ele tem esses elementos que conversam com esse tipo de filme em alguns momentos, essa montagem mais lenta, os momentos em que se dedica ao drama, acho que ele puxa dessa tradição universitária, mas na questão de gênero não puxa pro terror, eu embarco no gênero do boxe, que é um subgênero da ação e do drama. Acho que ele é bem filiado a esse gênero assumidamente, e acho que de certa forma é uma inovação nesse meio universitário porque acho que não é muito trabalhado, não foi trabalhado até a exaustão e é algo diferente.

JC: Já entrando no tema, eu percebo que esse é filme que utiliza do tema boxe pra chegar a um objetivo narrativo sobre a pressão e a derrota que ele se propõe a tratar, mais do que ser propriamente um filme que se encaixa no gênero do boxe em si e que lida com as questões mecanicistas do sistema funcional das lutas. Essa relação é algo que você já pretendia, de cair mais pro lado dramático do que pro lado funcional do esporte ou foi algo que se desenvolveu ao longo da produção?

GT: Eu queria fazer um filme que fosse curto, no meu primeiro filme, o Autorretrato, eu sofri com o tamanho dele, pra reduzir ele acabou ficando muito grande, pensando em festivais e no tamanho ideal para rodar. Meu primeiro filme ficou com vinte e cinco minutos e isso foi um problema para rodar nos festivais, então escrevendo o Golpe Fantasma eu já tinha essa ideia de algo curto, então depois de escolher essa temática do boxe, eu percebi que não daria para trabalhar essa minucia do esporte, essa lógica do campeonato e do desafiante, essa dinâmica que é intrínseca ao esporte, as apostas, essas minucias ligadas ao esporte eu percebi que não teria tempo em tela para trabalhar. Então eu decidi focar nessa jornada do personagem usando o boxe como plano de fundo e até como um chamariz estético, porque como eu disse é uma temática pouco trabalhada no cinema universitário. Então o enfoque foi nessa jornada de superação as avessas do personagem, o se encontrar na derrota, esse foi o foco do filme.

JC: Entrando nesta questão do tempo, sobre a duração do filme, você é um diretor que atua nessas duas obras no que é justamente o limite das nomenclaturas entre curta e média-metragem. Sobre essa relação com os festivais, você pensa que há futuro nos curtas, tanto na sua carreira quanto no circuito, ou há uma tendência do aumento da duração das obras?

GT: Eu não saberia dizer isso exatamente porque festivais são grandes organizações e no final das contas quem decide isso são eles. Eu acredito que os festivais vão continuar sendo portas de entrada pra novos cineastas passarem seu trabalhos, então tudo vai depender do que eles vão aceitar ou não. Mas eu vejo como feitor de cinema, que o curta-metragem é um péssimo formato, eu acho ele pequeno demais pra trabalhar e construir certas ideias, e acho limitado. Ele só serve pra esse primeiro momento em que você quer se inserir no mercado, ser visto. Basicamente você faz curtas pra passar em festivais, ele não tem outra forma de circulação. Não dá pra vender ele pra streaming, não tem como passar em cinema. Antigamente acredito que existia uma lei para passar curtas-metragens antes dos filmes, acho que isso é interessante. Hoje vejo o curta-metragem como um formato defasado, ele serve justamente para iniciar sua carreira, não tem motivos para um cineasta formado fazer um curta-metragem.

JC: Algo que eu notei no filme é o domínio dos recursos técnicos em função do estilo, talvez em alguns momentos haja uma sobreposição hierárquica da visualidade sobre a narrativa. Queria saber o que você pensa sobre essa relação, se o estilo pode ter prioridade ou se pode até funcionar com autonomia em relação à narrativa?

GT: Ao pensar o filme eu tento extrair do roteiro uma temática, pensar o que eu vou trabalhar como ponto central dessa obra, qual o sol dessa obra em que todos os outros elementos vão girar em volta. Acaba que quando eu escolho esse elemento, a trama vira só mais um dos corpos celestes que estão rodando em volta da estrela maior. Os outros corpos são a arte, a luz, tudo acaba ganhando a mesma importância. Apesar do roteiro ser a linha guia, o ponto inicial, eu acho que os elementos visuais são tão importantes quanto, é a partir deles que a gente conhece essa história. Mesmo que a gente esteja indo ao cinema pra ver essa história, nós também recebemos sensações, as vezes essas sensações contam mais do que se o personagem fez A ou B, se ele foi até tal pessoa e contou tal informação, essas mecânicas. As vezes a sensação desse caminho, até ele ir até personagem dar tal informação é tão importante quando a informação que ele dá pra construção do filme em geral, pra percepção do espectador depois. Essas sensações são geradas pelo estilo, eu não sinto nada na informação de que um cara andou até a casa de uma pessoa e deu a informação X, isso não gera sensações, essas sensações são geradas pelo visual. Eu acredito que essas duas forças, esses dois elementos, a estética e a trama, acabam tendo forças iguais na construção do filme.

JC: Você é um autor que tende a trabalhar em cima da referência e da citação, isso fica claro nesse filme. Mas em relação ao Golpe Fantasma, me parece que tem uma tendência em direção à referência e uma distanciação da citação direta, exceto na aparição do filme The Set-Up. Você acha que é uma relação que você vai seguir nas próximas produções?

GT: Eu acredito que sim, eu ando caminhando mais pra essa lógica do pastiche do que da paródia propriamente dita. Esse conceitos são difíceis de diferenciar, esses limites não são muito bem estabelecidos, cada autor defende de uma forma. Mas é o que você disse, eu tento me afastar um pouco dessa referência direta e buscar esse imaginário, lidar com o referencial como imaginário mesmo. Pensar esse cinema do passado que emerge nos meus filme como um imaginário real, não pensar em imagens específicas, mas pensar nas sensações desse cinema. Eu acho que sim, eu tenho estado menos interessado em imagens específicas e mais em um imaginário geral.

JC: Eu queria saber como foi lidar com o material, considerando as limitações referentes à produção. Como foi escolher a forma com que lidava com o material bruto, tanto na concepção da decupagem, da montagem e da trilha sonora, como foi lidar com o material.

GT: Eu e o Rafael, o montador, passamos por uma revisão desse material, assistimos todo o material e fomos elencando partes do bruto que queríamos usar, os takes que ficaram melhores. Elencamos o que era mais importante, o que íamos usar e o que descartar, isso pensando no filme sem as cenas de ação. A partir disso seguimos a decupagem de forma bem incisiva e com algumas alterações. Na primeira cena, como tínhamos mais planos, a gente mudou um pouco a decupagem porque não estava funcionando exatamente como a gente imaginou. Na cena em que ele assiste The Set-Up a gente organizou melhor pra criar essa tensão, então os tempos dos planos foram mexidos, a sequência também, mas foi um processo de montagem mais convencional. A luta foi um pouco mais difícil, nessa o Rafael teve mais autonomia porque no processo de filmagem da luta a gente dificultou um pouco a montagem, acabamos filmando a luta com três momentos coreografados, quatro momentos na verdade, que seriam o início da luta, o momento em que o Jorge é jogado nas cordas, o momento em que o Lil Jay dá um ‘clinch’ no Jorge, o início do terceiro round e o nocaute, foram cinco momentos coreografados. O link destes momentos, o que eles estariam fazendo e como estariam agindo ficou na mão deles, dos atores que estavam lutando. Então a gente tinha, no material bruto, materiais diferentes, cada take acabou tendo uma ação diferente. Então o trabalho do Rafael foi linkar todos esses materiais e achar as melhores partes de cada take, de cada round e de cada ângulo, e linkar isso de uma forma que ficasse coesa e agradável.

JC: Sobre essa relação com o esporte, como foi filmar com pessoas que praticam o esporte ao invés de…, bom você teve as duas experiências, tanto o ator que não luta quanto o lutador que não atua, como foi arquitetar essa coreografia e como foi lidar com dois atores tão distantes em experiência.

GT: Bom, o Cauã, que não é lutador, ele faz o Jorge que é o protagonista, ele se dedicou a treinar, passou dois ou três meses treinando boxe pra fazer esse papel, mas mesmo assim a diferença de habilidade dele pro Lil Jay que é um lutador profissional é gritante. Eu acho que nesse sentido o Lil Jay foi muito paciente no ensaio que a gente fez em guiar o Cauã nessa luta e deixar ele confortável nos momentos em que ele precisava se sobressair ao personagem do Lil Jay, pra que ele se sentisse a vontade pra fazer isso. Acho que foi interessante a dinâmica e o companheirismo entre os dois. O Cauã foi o primeiro ator com amis experiência com quem eu trabalhei, foi muito fácil dirigir ele nas cenas dramáticas porque ele é muito dirigível, as instruções que eu dava pra ele se mostravam muito no próximo take, a menor alteração que eu pedia eu conseguia ver diante dos meus olhos quando a gente gravava. Isso foi diferente quando a gente foi lutar, tinhas certos takes que eu queria que ele desse um golpe de um jeito e foi difícil dele acertar essa angulação, a movimentação do ombro, de cabeça, a direção do braço. Nisso eu tive uma dificuldade maior, claro porque ele não está acostumado na prática do esporte. Enquanto isso, o Lil Jay foi totalmente diferente, ele não teve cenas dramáticas, então não precisei dar tantas instruções pra ele. Mas nas cenas de luta eu senti a mesma facilidade que tinha com o Cauã, com o Lil Jay na movimentação corporal. O movimento que eu pensava ele conseguia executar no primeiro take, isso foi interessante.

JC: Sobre os próximos passos, o filme está pronto, já foi exibido no evento de divulgação e em uma mostra um pouco menor. Quais são os próximos passos?

GT: No momento não estou com uma estratégia, estou inscrevendo ele em todo festival que aparece, essa é minha abordagem por enquanto. Vou tentar passar ele no máximo de lugares que eu conseguir. Tem alguns festivais que eu gostaria que ele passasse mas, no festival de Tiradentes não consegui passar, o festival do Rio seria interessante mas ainda não abriram as inscrições. Enfim, não tenho uma estratégia, mas vou rodar ele no máximo de festivais que eu conseguir.

JC: Sob uma perspectiva privilegiada que eu tenho de saber um pouco mais sobre você, gostaria de perguntar sobre próximos projetos. Eu sei que você vai fazer um próximo projeto em breve, você já tem pensamentos ou ainda está com a cabeça muito nesse filme ou em outros projetos?

GT: Eu vou fazer meu TCC, pretendo que ele esteja pronto até o fim desse ano, porque eu pretende me formar até o fim desse ano. Eu já tenho o roteiro pronto, parte da equipe está definida e eu estou com a decupagem pronta. Então a gente está em um momento de dúvida, eu e o pessoal da produção, se a gente começa a produção sem um edital ou se esperamos a saída de algum edital para podermos ter uma verba melhor. Mas esse filme vai acontecer até o final desse ano. No momento eu estou com a cabeça mais nele do que no Golpe Fantasma, sinto que ele já ocupou o que tinha que ocupar da minha mente, agora estou inscrevendo ele em festivais e vendo no que vai dar. Agora os olhos estão no próximo passo. Nesse próximo filme eu volto a tratar dessa lógica referencial, mas acho que dessa vez um pouco mais puxado pra esse lado do imaginário do que pra essa referência direta como você tinha citado. Basicamente a sinopse é: Um cara que se apaixona pelo fantasma de uma mulher presa dentro de um quadro, e esse fantasma pede ajuda para ser liberto. Essa é a logline da trama e logo ele vai ficar pronto.


Crítica

Há algo de muito particular nos filmes de Gabriel de Tilio, elementos da linguagem que compõe uma estética muito singular e que por muitas vezes acabo, de maneira preguiçosa, atribuindo às particularidades do cinema universitário. Ou pelo menos atribuía até que finalmente assisti A Dama do CIne Shangai. Foi então que percebi que Gabriel tem uma facilidade enorme em articular suas referências através da forma, de maneira que essa fluência da linguagem cinematográfica, quase como quem aprende outras línguas pelo método mimético, se manifesta em seus filmes de forma cristalina. Percebi isso após seu primeiro filme, Autorretrato de 2023, ter me deixando um tanto quanto confuso. A origem daqueles elementos e daquelas escolhas só se faz clara quando assisti o filme de Guilherme de Almeida Prado, que Gabriel tanto recomendava, e percebi que o processo produtivo deste era muito diferente do que eu conhecia. Com o crescente contato com este diretor e com a realização de seu filme seguinte, notei uma ligeira mudança neste processo e cheguei a questioná-lo sobre esta durante a entrevista. A articulação referencial de Gabriel parece estar gradativamente se deslocando da citação em direção ao pastiche, e isto fica claro em Golpe Fantasma, apesar das também presentes citações diretas.

Golpe Fantasma é um filme que se apoia no subgênero do filme de boxe para construir, a partir de seus mecanismos particulares, uma pequena narrativa que aborda o medo do fracasso, e que neste caso só se encerra com a concretização deste medo. Esta caracterização é importante pois um longa-metragem, por exemplo, poderia alcançar ambos os objetivos, poderia muito bem ser de fato um filme de boxe em que esta jornada e resolução narrativa se dão simultaneamente aos processos lógicos, mecânicos e visuais do subgênero. Reside justamente na limitação da duração a impossibilidade de alcançar os dois, o que levou Gabriel a optar por utilizar deste subgênero mais como um conjunto de elementos que evocam os filmes mais conhecidos. Essa escolha funciona. Talvez frente à esta mesma decisão eu optasse pelo caminho contrário, por um enorme apego com a visualidade e com todos os mecanismos que funcionam dentro deste tipo de filme, isto seria um erro. Neste sentido admiro a maturidade envolvida nesta decisão e reconheço que foi essencial para o funcionamento do filme enquanto obra.

Em função de um destaque de suas qualidades visuais, tanto as alcançadas a partir da luz quanto dos efeitos fotográficos diversos, há uma simplificação do trabalho sonoro que não se alia bem à esta capacidade estilística já estabelecida. O silêncio, ao passo que fundamental em diversas obras, aqui parece não funcionar em diálogo com a proposta. Para a manipulação do conjunto tanto sensorial quanto emocional do espectador, o silêncio, ao menos neste caso, não funciona como ferramenta útil para este objetivo. Um trabalho mais aparente do som, mesmo mais naturalista, potencializaria a dramatização a qual o filme se propõe. De forma alguma é um trabalho de som ruim, é apenas reducionista.

É justamente a partir dessas qualidades visuais, que estão em desbalanço com as sonoras, que o filme ganha potência plástica e cria um jogo de atração consideravelmente efetivo. O primeiro plano de todo o curta já é realizado com um destes efeitos que serão vistos com frequência ao longo de sua duração. Estes são ainda soluções inteligentes para as sequências em que se exige mais da organização cênica e esta se encontra limitada pelos recursos disponíveis. Tanto para facilitação do processo da coreografia quanto para ocultar quaisquer eventuais erros, estes efeitos funcionam quase como deslocadores diegéticos momentâneos, em sua mera presença o espectador se vê obrigado a relevar muitas relações e ações incongruentes. Para além dessa inteligente maneira de utilizar destes recursos limitados, estes efeitos servem evidentemente ao desenvolvimento narrativo que se apoia nestas transposições sensoriais do personagem para o público.

A possibilidade de ocultar estes possíveis inconvenientes provindos da organização cênica, em específico da coreografia, não significa que haja de fato algum presente no filme, ao menos não visível. A coreografia proposta se articula com certa fluidez e se prova madura em seu ritmo e complexidade. A própria decupagem destas sequências de ação é bastante sofisticada tendo como comparação as outras cenas do filme. Destaque para o golpe final em que o vemos em repetição três vezes em três planos completamente diferentes. Se Gabriel menciona o tempo disponível como uma das principais limitações impostas, sabemos ao menos que para este momento o tempo devido foi reservado.

A conclusão desta breve história se dá logo em seguida com o protagonista já caído ao chão e seu treinador questionando sua integridade física. O alívio deste personagem, questionavelmente inteligível, é também o ponto de alívio do espectador que vinha sendo provocado com a sequência de ação. Acredito que para este, assim como para o personagem, pouco importa o resultado desta luta, mais importa que haja algum desfecho o mais rápido possível. Esta angustia do protagonista é repassada com muito sucesso para o espectador ao longo das sequências de treino que abusam dos efeitos visuais justamento com esta intenção de repasse sensorial. Assim como os treinos se mostram exaustivos a sensação de cansaço é muito bem transferida.

Golpe Fantasma é, como já mencionado, um filme que utiliza do subgênero do filme de boxe, apesar de não se comprometer a desenvolvê-lo de maneira mais complexa. Em sua duração esta não poderia ser uma abordagem mais acertada e apesar de não se portar como um filme de boxe de fato, a escolha desta nicho estilístico se mostra tanto quanto uma demonstração de capacidade pessoal quanto uma declaração estética de apreço pelo gêneros e pelas referências. Muito escanteado, o cinema de gênero não é uma alternativa fácil para a articulação estética. Portanto, é realmente impressionante ver tamanha maturidade na articulação das referências e dos códigos estilísticos aqui presentes.

 

João Carvalho

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