Entrevista
Essa foi a segunda entrevista que fiz. Assim como a anterior, converso aqui com um grande amigo. Conheço, portanto, muito do que João Vitor Tebaldi é como pessoa e artista. Faço questão de brevemente apresentá-lo, se trata de um fotógrafo, músico, artista visual, cineasta e realizador em diversos outros campos da arte. Em qualquer via artística em que Tebaldi se aventure, seu senso estético permite que se destaque, mesmo que sem experiência prévia.
Escrevo esta breve introdução logo após ter realizado a entrevista em minha casa. Entre goles e tragos, para além da transcrição aqui disponível, as conversas anteriores e posteriores à entrevista reforçam as ideais aqui dispostas. Reforço e adianto minha crítica: a maior qualidade de Tebaldi é seu senso estético e acredito que essa entrevista e crítica possam ilustrar, mesmo que minimamente, esse dom que há muito me impressiona.
João Carvalho: Como você acha que as suas outras áreas de atuação artística influenciam nos seus filmes?
João Vitor Tebaldi: Eu acho que influenciam muito na questão estilística, levando em consideração a área da música, e de certa forma também sempre aparece nas minhas produções, sempre deixo em destaque nos roteiros, tento trazer um pouco de música para o que estou fazendo, mesmo que em momentos pontuais. Por já ter esse contato com a fotografia, por já ser fotógrafo, talvez isso diga respeito à forma com a qual eu tenho contato com essas fotografias que não são minhas. Essa forma de analisar e de pensar o que está acontecendo naquela foto, o que aquelas imagens tem em comum, o que está acontecendo naquele universo, e trabalhar nesse filme foi olhar algumas fotos e pensar: “Essa foto eu queria ter feito.” ou “Essa foto é muito boa pra uma foto feita por alguém que não tem noção técnica da coisa mas está fazendo um registro bonito e simbólico da realidade.”. Então eu acho que é muito sobre a sensibilidade do que eu estou vendo e do que eu posso trazer pra esse universo enquanto artista.
JC: Como foi a sua experiência com esse material, que é um material de arquivo, considerando que você é um artista que cria constantemente seu próprio material, mas que também lida eventualmente com colagens e ressignificações, como foi lidar com esse material que é puramente de arquivo e tentar criar a partir dele?
JT: Foi difícil porque ao mesmo tempo que eu sabia que tinha ouro nas minhas mãos, sabia que tinha muitas fotos boas de família, muita coisa legal para refletir sobre, ao mesmo tempo era difícil construir algo só com fotografias e fazer isso se tornar interessante porque não tem nada de muito extraordinário, só a minha vida. Eu quis trabalhar nisso de uma forma que fosse algo meu mas que também gerasse empatia em quem está assistindo. Então foi uma dificuldade pensar em como trabalhar essas fotos em uma montagem, e de uma maneira que eu consiga ter uma certa circularidade nesse roteiro também. Como conectar todas essas partes, são muitas histórias fragmentadas mas que de certa forma vão ao encontro do que eu sou. Então de início eu tive muito essa dificuldade porque eu vi que boa parte do pessoal da turma tinha vídeo e eu não tenho quase nenhum vídeo da minha infância. Então tentar pensar por esse lado da fotografia e tentar construir foi algo bem trabalhoso pra mim, mas que de certa forma também foi positivo porque eu encontrei muita coisa. Foram cerca de vinte álbuns que eu encontrei nesse processo de pesquisa, e encontrei muita coisa nova que eu não tinha visto, encontrei coisas que não via há muito tempo e consegui recuperar alguns álbuns que minha mãe achou que tinha perdido na enchente, mas que estavam com uma tia minha. E foi legal por isso, consegui encontrar álbuns também de um tio meu que estavam na casa da minha avó e entregar para a família. Então eu gostei muito desse contato com a fotografia como uma maneira de identificação, de encontrar esses álbuns. Para além do que eu levei pro filme, de encontrar as pessoas e falar: “Olha aqui você quando tinha um ano de idade.” e ir conversando sobre essas fotos com as próprias pessoas daquele universo. Fazendo uma pequena relação com a outra pergunta que você fez, eu acho que, quando eu falei de música, o filme termina com uma música do Terno Rei, Chegadas e Partidas: “Estamos todos reunidos nesta casa trocando retratos”. E no final é isso, eu sempre gostei disso, desde novo de pegar essas fotografia e levar até os meus avós, até a minha mãe e ficar olhando e conversando sobre elas. De certa forma eu pude fazer isso durante esse processo também, levar e mostrar essas fotos para as pessoas e extrair algo além do que está ali naquela imagem.
JC: Pensando sobre essa extração, o filme obviamente depende do voice-over, ele é metade do filme, então tem um processo de estruturação narrativa. Como foi esse processo? Tanto da narração quanto da historieta, por exemplo.
JT: Foi muito no “feeling”. Eu sabia que teria esse problema de trabalhar com fotografias e ter que me apoiar no voice-over para contar uma história, e ao mesmo tempo que eu achava isso legal, infinitas possibilidades, foi algo que foi surgindo conforme eu fui trabalhando o texto e olhando as fotos. Eu comecei a trabalhar no texto a partir de uma reflexão real que eu tinha dessa coisa de achar que o mundo era preto e branco antigamente, eu realmente achava isso quando criança. A partir do momento em que eu comecei a visitar esses álbuns, algumas coisas foram fazendo sentido na minha cabeça, eu fui criando certas conexões e fui trabalhando isso consecutivamente com o texto, trabalhando os dois quase em união. Eu via os álbuns e ia pro texto, pensava o que fazia sentido e sobre os ganchos. Fui ligando uma história a outra e conforme eu fui encontrando mais fotos eu ia pensando em outros artifícios que eu poderia usar para conectar essas histórias. Mas foi muito no “feeling” mesmo de como eu ia me sentindo vendo aquelas fotografias e como eu queria causar o impacto trabalhando com aquelas imagens.
JC: O filme é evidentemente sobre perdas, o próprio nome deixa isso claro, sobre saudades. Eu queria te perguntar, como você enxerga essa relação entre a fotografia e a saudade ou a memória?
JT: Eu acho que fotografia e memória são coisas quase que inseparáveis. Muito dessa ideia de olhar as fotos dessa forma vem da ausência de um material de vídeo e áudio, isso é uma das reflexões do filme, de não ter registro de muitas coisas, de sentir essas perdas e revisitando essas fotos ter um certo contato com isso que já foi, ter um apego meio nostálgico. Eu acho que essa é uma relação natural, fotografia é memória. Eu gosto muito de pensar nisso como fotógrafo, de fotografar um lugar e passar lá um tempo depois e ver a diferença. Isso é algo que senti muito com essas fotos, de olhar o contexto daquelas imagens. Então no próprio filme eu uso, tem algumas fotografias de 2004, 2005 na casa de uma das minhas avós, e essa minha avó faleceu ano passado, hoje em dia a casa está completamente vazia, está a venda. Eu acho que a foto é algo que, para além do vídeo, tem muitas camadas, é um momento congelado, você não tem acesso a mais nada, você só tem aquele momento e naturalmente vai se lembrando de como aquelas coisas funcionam, aqui só funciona na sua memória, não tem uma imagem clara do espaço.
JC: Sobre a historieta e o recurso de fragmentação da imagem, esse recorte das fotografia que você faz ao longo do filme, pra mim isso é brilhante. Quando você falou agora de lembrar e reconstruir o funcionamento desse espaço, me parece que é isso que você está fazendo através desse recurso. Como você chegou nesse ideia?
JT: É um filme todo montado no celular, então tem as limitações técnicas, mas eu não queria que fosse algo muito simples, então eu utilizei isso muito como um recurso estético para manter ali durante o filme e mostrar como essas relações são possíveis, mostrar mais detalhes daquelas fotos e tornar tudo dinâmico. Acho que faz sentido no inconsciente da obra, eu trabalhei com alguns retratos também, mas foi muito por esse lado estético de tentar construir algo agradável e tentar mostrar um pouco quem são aquelas pessoas. Acho que dando aquele close, aproximando e mostrando um pouco aquelas pessoas que estão na foto deixa em evidência quem está ali de fato. A questão da historieta, foi uma ideia que eu tive antes de começar o texto, eu pensei em trabalhar o filme sendo um foto-filme, trabalhando uma decupagem em cima dessas fotos e construindo uma história com cartelas. Mas como é algo que eu acho que não se sustentaria ao longo de tantas camadas durante o curta, eu decidi utilizar ali em um momento pontual, e para trabalhar de uma maneira meio engraçada mas ao mesmo tempo melancólica essa questão dos meus avós e de no dia do casamento deles meu avô estar com o dedo machucado porque ele trabalhava na roça. É uma questão de a minha família ser uma família simples, é uma história sobre pessoas simples, da roça, do interior que ao mesmo tempo vai se encontrando com a violência urbana como é o caso da história do meu pai. É sobre mostrar o que é uma família simples, trabalhar com pessoas normais que não estão fora da realidade do cotidiano brasileiro, pelo menos no meu contexto e de onde eu vim.
JC: Aproveitando que você entrou no bloco do filme do seu pai, que é a maior porção do filme. Como foi a decisão de incluir os registros da violência? Porque são fotos fortes, e que eu acho que tem um impacto preciso no filme, mas se tratando de um filme tão pessoal é uma decisão que eu imagino como difícil e importante.
JT: Foi muito difícil pensar sobre como minha mãe ou minha vó ficariam vendo aquelas imagens e sobre como eu consegui aquelas imagens. Eu fiquei em um dilema entre usar e não usar. Mas ao mesmo tempo eu acho que a arte tem que impactar mesmo, e eu quis mostrar porque é isso que acontece e foi isso que aconteceu. Eu só falar sobre o assunto e não mostrar não vai diminuir a importância daquele acontecimento, mas eu acho que mostrando eu trago à tona de uma maneira mais…
Neste momento Tebaldi interrompe sua fala e diz que deixou algumas fotos de fora do filme, fotos do episódio violento de seu pai. Ele me estendeu seu celular com todas as fotos.
JT: Foi um dilema pensar, será que é certo mostrar isso, será que meu pai gostaria que eu estivesse mostrando isso? Essas questões éticas da coisa, mas que de certa forma eu não estou usando para desrespeitar, estou mostrando para realmente impactar e mostrar como são essas coisas, porque elas não deixaram de acontecer. Então, se eu falo e não mostro, de qualquer jeito já aconteceu. Se eu tenho esse recurso, eu acho interessante trazer de maneira a complementar, não é algo gratuito, é algo que impacta, é uma forma de escancarar essa violência que acontece e aconteceu com a minha família. A arte é pra impactar, é um filme muito pessoal, e se de alguma forma faz parte da minha história eu quis mostrar. Ao mesmo tempo fica muito aberto, muitas pessoas chegaram em mim para perguntar o que aconteceu. Foi algo que eu não quis explicar muito pelo filme, mas de certa forma está ali, trás uma reflexão e um contexto interessantes para pensar além do filme, por que essa coisas aconteceram e por que estão sendo mostradas.
JC: Por último eu só queria te perguntar sobre futuros projetos, se quiser falar sobre outras áreas de atuação artística também, mas considerando o lançamento desse filme em um festival, você já tem algum outro projeto em curso?
JT: Esse ano eu termino a faculdade, então estou mais focado no meu projeto de TCC, que é um curta-metragem. A princípio é um “coming of age” acompanhando uma juventude suburbana que está inserida no meio do skate, que é uma vivência presente na minha vida. A fotografia está viva como recurso profissional, de estar trabalhando na cena noturna da cidade, fazendo fotos como algo profissional, mas que também convergem pro lado artístico em que eu tenho muita liberdade para criar. Na música eu ainda pretendo lançar alguns projeto que estão engatilhados para esse ano. Esse ano ainda terá uma exposição que está sendo idealizada pela minha namorada, Maria Clara Santos, e que visa trazer esses registros acumulados ao longo dos anos na cena noturna de Juiz de Fora, da qual eu também fui um dos principais fotógrafos inseridos no meio.
Crítica
Inicio deixando clara a perspectiva que tomarei para este filme, e para isso apenas contextualizarei qual a minha relação com o mesmo. Tendo realizado um curta-metragem anterior — Pseudo-Amor, Bandas Indie (2024) —, e diversos videoclipes para suas próprias músicas, este talvez seja o primeiro projeto audiovisual de João Vitor Tebaldi de que não participei desde que nos conhecemos. A experiência estética que um indivíduo estabelece com uma obra a qual o próprio idealizou, ou participou, é radicalmente diferente da estabelecida com obras alheias. Esta relação tende, inclusive, a ser conturbada e sofrer influências das inúmeras revisitações e dos materiais não utilizados dos quais este tem ciência. Assistir a uma obra audiovisual de Tebaldi da qual eu não havia participado muito me lembrou de quando eu ouvia uma de suas músicas pela primeira vez, faixas que muitas vezes permaneceram apenas como arquivos. Esta lembrança veio acompanhada das mesmas observações acerca do senso estético de Tebaldi. Entretanto, se em suas músicas há uma articulação muito bem estruturada de suas referências, de maneira que estas para o ouvinte mais atento são precisamente rastreáveis — fato que se repete em seu primeiro filme —, em Ainda Sinto Saudades Tebaldi está utilizando ferramentas completamente novas. Aqui, no “documentário” composto majoritariamente de fotografias, em que o autor é compelido a lidar consigo sem que possa se projetar em algum personagem, em que o humor não tem espaço e onde não pode produzir as imagens que utilizará, Tebaldi parece se encontrar em campo obrigatoriamente mais imaginativo.
Sinto que o senso estético de Tebaldi já se manifesta logo no primeiro fotograma, o logo do curso de Cinema e Audiovisual da UFJF. Simplesmente não consigo pensar em outra pessoa que pudesse realizar tal ato simultaneamente tão inocente e provocativo, este manifesta o constante desejo de se afastar do usual. A breve cartela, aliada aos sons característicos que a acompanham, prenunciam o que será o filme, um manifesto da manufatura e um resgate da intencionalidade das operações mecânicas. É o desenho no lugar do design gráfico, é o ato de filmar uma fotografia física em vez de lidar com o arquivo digital, a maneira como Tebaldi tem a constante vontade de lidar manualmente com o material, é sempre este que têm a câmera na mão. Todo o processo de realização deste filme parece, e também se prova, ser extremamente artesanal.

Muito cedo no filme Tebaldi dispõe suas cartas na mesa, apresenta a grande maioria das ferramentas que utilizará, os passeios pelas fotografias físicas, os recortes em função de uma decupagem, o material capturado a partir da revisita das fotos e, evidentemente, a narração. Destes, os dois primeiros são os que mais intrigam. Apesar de, como já mencionado, a captura desta imagens seguir a lógica imposta de artesanalidade pelo resto das relações materiais apresentadas, ao mero olhar não impressiona. Isto significa apenas que a captura destas conversas, aliada à apresentação das fotografias, parece muito natural e não se destaca próxima das outras operações formais. Com a narração isto se repete, e à primeira vista chega a provocar uma recusa a este recurso tão utilizado que parece já ter se esgotado enquanto ferramenta para a maioria dos casos. Neste, entretanto, entendo que é fundamental, apesar de no momento da entrevista ter lhe perguntado sobre, com a sensação de que estabelecia uma relação perigosa de dependência do texto pelas imagens. Os outros recursos, entretanto, a mim não poderiam estar em maior destaque. Se a primeira manifestação da escolha pelo registro do registro em detrimento de seu uso em forma digital não fosse suficiente — a grade de quatro fotografias do que parece ser uma comemoração de bodas —, logo em seguida Tebaldi engata em alguns recortes e então na breve historieta contada a partir justamente da decupagem destas imagens estáticas e das cartelas, que me parecem muito bem humoradas em conjunto com a trilha de escolha. Ainda nesta historieta, os passeios — quase que como panorâmicas e inclinações — são utilizados com a maior concentração do filme. Todos estes recursos parecem evidenciar não apenas uma maneira inteligente de contornar a fixidez das imagens fotográficas em função de uma “dinamismo”, como dito por Tebaldi durante a entrevista, mas sobretudo uma pulsão pelo ato narrativo através do ato de decomposição destas imagens, como a própria historieta exemplifica e como o cinema se entende enquanto linguagem. Este me parece, portanto, um caminho traçado da fotografia em direção ao filme, o destino são as possibilidades formais que a imagem em movimento permite e a fotografia nega.
Nascem então as cores e estas parecem confundir a cronologia que é na verdade muito direta. A fotografia colorida, mais do que a monocromática, cria eventualmente falsas interpretações temporais por conta de seu nível de degradação. Uma fotografia bem conservada pode parecer ser mais recente pela integridade de suas cores. Este fenômeno cria aqui, talvez acidentalmente, estes cortes que constroem entre si sentidos, ou mesmo evidenciam fatos:
Logo o protagonista é apresentado, Rafael, pai de Tebaldi. Suas aparições não são tão longas quanto eram na memória, Rafael parecia tomar conta do filme. Ao reassistir percebe-se uma divisão inclusive bem equilibrada das aparições destes personagens. Entretanto, o “impacto” — como dito pelo diretor —, faz com que as atenções se voltem para esta figura um tanto quanto misteriosa. Evidente que a retenção intencional dos detalhes por parte do Tebaldi agita ainda mais a curiosidade que já é despertada, em sua maior parte, pela narração. Ainda sim, não consigo abandonar a ideia de que há algo que também desperta esta curiosidade nas fotografias em que Rafael aparece. Mas sobre isto, culpo a extra-diegese.
Julgo que há um mérito considerável em despertar a empatia do espectador por um trabalho tão pessoal. Acho que aqui este feito é atingido através da montagem, e incluo em montagem também as operações de recorte e decomposição das imagens, assim como a trilha. Pode parecer que me refiro então a todo o filme, mas são justamente os elementos que são comumente atribuídos a este êxito que deixo de fora. Não acredito que a narração, apesar de necessária, seja o que provoca tais sensações, muito menos a natureza das imagens em si, com exceção das fotografias gráficas. O poder plástico aqui é quase que inteiramente terceirizado, apesar da curadoria das imagens. A narração também poderia ser substituída com devido tempo para elaboração de uma alternativa. O que é verdadeiramente insubstituível neste filme, e onde acho que está sua verdadeira potência, é na organização e estruturação de todo o material de forma não apenas a criar uma narrativa eficiente, mas a também despertar no campo estético, pela relação com a fotografia de maneira artesanal, um saudosismo desenfreado, o qual o próprio filme acertadamente não supre, deixando o espectador com o contínuo desejo de consumo de mais imagens como estas.
João Carvalho




